Não-ficção

Mais do que marlboros

Tento, instintivamente, fugir daquilo que me causa transtorno. Falho miseravelmente todas as vezes. Acho que tem alguma coisa a ver com o seu cheiro, e o jeito que cê me olha e sorri quando, por um milésimo de segundo, cê consegue esquecer do peso que te corrói todo o tempo.

Queria que no meio de todas as minhas músicas bad vibes, eu não estivesse ouvindo Mr. Brightside, arrancando as cascas de todas as feridas que estão longe de cicatrizar. Permaneço exposta, caída no chão, de um lado da rua paralelo ao seu. Parece que o tempo todo estamos em busca do carro que vai nos atropelar e ir embora, deixando pra trás somente o que restou das nossas almas cansadas.

Se te serve como algo, cê amaldiçoou o meu coração e ele permanece intacto, sendo seu. Nunca consegui realmente capturar os destroços do que sobrou. Não consigo mais pular desse barco, mesmo que ele esteja afundando há tempo demais. E te amo, mais do que amo marlboros. E te espero por alguma razão que ainda não sei definir.

And i just can’t look, it’s killing me and taking control.

Não-ficção

Amarelo mostarda

A gente brinca sobre casar, como se fosse uma brincadeira para mim e eu aceitasse perfeitamente ser largada no altar da nossa realidade, fazendo piadas sobre isso. Eu fico com azia e ignoro o assunto, porque o relógio continua girando e não há mais tempo para resgatar o que já foi. Permaneço dizendo isso. Continuo aqui – vendo o circo pegar fogo comigo dentro. I’m fine.

Naive continua tocando ao fundo, porque a arma que flecha meu coração é a mesma que o estraçalha. Cê consegue ver que me tornei meia pessoa? Essa força gigantesca que transparece é uma faixada pobre, aquela piscina cheia de ratos que cantaram por aí. Meu coração é amarelo mostarda e cê disse que ia cuidar dele direitinho, porra.

Não sei como começar essa conversa, porque todas as partes de mim estão raivosas e eu já não me reconheço. São 1h41 e eu estou bêbada, juntando os cacos dos copos que eu não quebrei. A posição é de alerta, em constante defesa, e eu peço desculpas pelas coisas que eu não tenho certeza e me sinto mal por todas aquelas que possuo.

Não-ficção

Desabafos de quem não sabe beber vinho caro.

Aliás, nem precisa ser muito caro não.

Quero iniciar essa postagem pedindo desculpas desde já ao senhor meu pai, pessoa apreciadora de bons vinhos desde que me entendo por gente e que, sem explicações, não me transferiu geneticamente seu paladar sofisticado. De qualquer forma, vou contar como funcionou a minha trajetória com bebidas alcoólicas para que vocês entendam o que quero dizer.

Comecei a beber muito nova – o que hoje ainda considero ser – bebidas destiladas. Foi uma época cheia de “boom” de estilos – e sim, estou falando dos emocore, indiecore, from uk, etcs – e eu nunca fui muito de andar com pessoas mais centradas em seus afazeres de acordo com a idade que elas possuem. De qualquer maneira, o vinho não me foi apresentado de forma correta.

Quem já bebeu muito vinho de plástico na praça com os amigos sabe do que eu estou falando. Aliás, vinho não, porque a cantininha das trevas não chega nem a isso. Pasmem amigos, mas passei anos da minha existência deitando e rolando em garrafas de sangria.

Devido a isso, me parece que perdi o paladar para os tais vinhos saborosos que as pessoas adultas tanto gostam. Não só gostam, como te convidam para apreciar uma garrafa e, nesse ponto, como faz? Não sei tomar esse troço. Só consigo se tiver com um cigarro aceso, pra fazer o digestivo toda vez que vier esse gosto que parece uma esponja que suga a saliva da boca da gente.

Ninguém me chama pra tomar Martini, por exemplo. Falam que é bebida de moça, mas não me chamam pra tomar esse caralho. É drink de cocota, mas é gostoso pelo menos – e ainda vem com azeitoninha, amigos. Apesar disso, fui descobrindo uns vinhos mais tragáveis, tipo o Pérgola, 16 golpes por 1litro. Também dá pra citar o Dom Bosco, que deve custar no máximo uns 11 reais.

Agora que eu saí da fase beta da vida, não dou conta mais das bebidas trevosas de antigamente. Se duvidar eu não quero nem vinho, nem chope, mas fiquei curiosa com um tal de chopp de vinho que eu ouvi falar (se duvidar, encontrei a solução).

Não-ficção

06/2017

Fumei um baseado para anestesiar a alma das perdas do passado. Abracei por muito tempo certas dores, fui sugada até o último segundo por elas. A falta que você faz está em todos os cômodos dos caminhos que passo, embora nesse momento eu carregue a certeza de que há coisas que já não podem ser mais.

O fim da gente foi um baque. Queria que você tivesse sido mais honesto, porque tentar me poupar foi falho e me minou de maneiras que não consigo descrever aqui. Não quero que cê se sinta ferido por mim e pelas coisas que escrevo. Queria ter encontrado outra maneira de colocar um término das coisas no mais profundo de mim, mas escrever é quem eu sou.

Sinto muito pelas coisas ruins terem se tornado mais pesadas e constantes do que as boas. Não quis te sobrecarregar com as minhas expectativas voluptuosas que sentam nos ombros da gente e não saem nunca mais. No fim das contas, a gente se despediu num momento cheio de situações impactantes e, a sensação que ficou, foi de que meu carro bateu. Bati. Train wreck.

Fico repetindo o meu clichê brega de sempre, que até uva passa. Em parte, porque sei que vai; Em outra, porque torço para que sim. Ainda estou tentando me desprender das sensações de massacrada e traída – ou talvez nem tanto. Cê quebrou uma das minhas partes mais bonitas, mas me ajudou a dar a luz a minha favorita.

Perdi as forças e não consigo mais ficar pulando de um fundo do poço para outro, sem nunca encontrar a saída. Não quis chacoalhar nenhuma caixa superlotada de fantasmas do passado. Is empty without you. Sobrou essa casa cheia de pacotes com as coisas que ficaram para trás, não ditas. Sobrou também um cartão que dizia que o fim da gente não era o fim do amor.